Produto Frágil!

Assim que cheguei em casa, cansado e completamente molhado de um temporal sem igual, que inundara quase todos os caminhos que levavam a minha casa, o telefone tocou.
Pensei em não atender, pois no estado em que me encontrava, teria sido compreensível, mas como percebi que ninguém ainda estava em casa, acabei o atendendo, pois poderia ser algo importante.
Ouvi do outro lado daquela ligação, um homem desesperado, ofegante, tentando avisar que não me escutava direito, mas que devido a chuva forte tinha perdido seu carro em uma enxurrada… depois ouvi muitos chiados…. e a ligação caiu. Tentei avisá-lo de que aquilo era um engano, pois eu não o conhecia, mas não consegui.
A princípio, me irritei com aquela ligação, pois não consegui me explicar com aquele homem sobre seu engano, mas não tendo como ajudá-lo, tentei abstrair. Liguei a tv, arranquei a roupa molhada e me dirigi lentamente ao banheiro, mas antes de chegar, o telefone tocou novamente. Desta vez, preocupado com os raios, hesitei em atendê-lo, mas como não via outro remédio, retirei o insistente aparelho do gancho a contra gosto, para ouvir mais uma vez a voz daquele mesmo homem, mas desta vez em profundo desespero. Disse-me que estava tentando fugir de uma forte correnteza, mas que já estava sem forças para se segurar, pois logo depois que havia desligado, se agarrou em um poste e como já estava quase sem forças para se segurar, tinha enfim perdido as esperanças e se despedia…
Olhei para a tv de relance e vi chocado diante de tamanha coincidência, que as câmeras sensacionalistas daquele programa de quinta categoria, focalizavam os últimos momentos de agonia do pobre homem que se despedia de mim, pensando ser os seus familiares.
Ele caiu, sumindo nas águas nervosas daquela enchente, junto com a pior ligação que já havia recebido em minha vida!
Morreu assim, sem apoio, desesperado e sem ajuda… a minha ajuda!
Senti por ele, pois somos todos frágeis e mortais… E na dor, somos todos iguais…

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2 Respostas para “Produto Frágil!

  1. Marcelo,

    sabe aquela sensação de “não sei bem o quê” quando se acaba de ler um texto que nos toca?…

    Pois é. Tô sentindo isso (risos).

    Confesso a você que ainda hesito um pouco: será uma história do “Marcelo fingidor”, que cria livremente, ou será mesmo uma daquelas coincidências em que tanto acredito, relatada pela sensibilidade do homem que, mesmo assumindo as suas “contrariedades”, resiste a entregar-se à indiferença completa?…

    A conclusão com que você encerra a narrativa, Marcelo, me remeteu a uma das máximas que adotei desde que a li pela primeira vez: “a nossa vulnerabilidade é a coisa mais humana que temos” e que, sem dúvida, todos temos em comum.

    O “curioso” no seu “estilo” é realmente o modo como você consegue mesclar o bom-humor a algo que, por fim, é trágico.

    Sorri ao ler “tentei abstrair” e “a contragosto”. “Soa” tão verdadeiro (risos)! E, mesmo sem conhecê-lo, sua narrativa me conduziu; visualizei o passo a passo, inclusive o seu lento caminhar em direção ao banheiro.

    Será um prazer continuar a “lê-lo”.

    Abraço fraterno,

    Iara Mola

    • Olá Iara! Tudo bem?
      As vezes acho que ninguém lê as maluquices que escrevo por aqui, principalmente em um Blog que, teoricamente, é sobre Diabetes!!!rsrsrs
      Agradeço suas palavras e agradeço ainda mais, por ter conhecido o seu Blog, pois admiro muito quem realmente tem a capacidade de escrever tão bem!
      Volte sempre, sim!!! Obrigado!

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