Um Anjo e Uma Vila!!!

Andava suave, cabeça erguida e com um bom sorriso no rosto.
Nunca conheci ninguém igual aquele rapaz, sempre tão em paz e tão cordial.
Sabia chegar e principalmente… sabia sair! Muitas vezes, assim… de fininho, pois com seu jeito alegre e cheio de histórias para contar, quase sempre, tinha que sumir das rodas de conversas desta maneira, bem discretamente e sem chamar a atenção, porque do contrário, não o deixavam ir embora.
– Sabe como é?! Uma conversa puxa a outra e não consigo escapar! Dizia sorrindo, com seu jeito jovial.
– Sempre tenho que sair assim… em degradê… aí… vou sumindo, fingindo que vou até ali, pegar um negocinho e fujo para casa!!! Confessava, se divertindo da própria frase.
Diziam ser a pessoa mais prestativa da nossa vila de pescadores, pois até hoje, não existe ali uma alma sequer que consiga falar uma mísera palavra que prejudique sua boa imagem.
Todos deviam algum tipo de favor a ele, ou até mesmo uns trocados, pois era tão atencioso e generoso aquele moço, que as vezes, chegava a gastar todo o seu suado dinheiro de uma tarde inteira em esforçada pescaria, no auxílio aos mais necessitados. E não raro, quando o pouco que tinha acabava, ele se via sem nada! Então, ria do próprio infortúnio e alegava em claro e bom tom, que: – Se há peixe, há vida e se há água, há peixe, então… Viva a Vida!
A história conta apenas que ele chegou numa canoa, em um brilhante dia de sol, vindo de não se sabe onde e por ali ficou.
Sua conversa era esperta, de quem tinha boa educação, mas se perguntado sobre seu passado, logo disfarçava e enrolava a curiosidade e o curioso, com uma boa história e um belo sorriso.
Naquela época, houveram até umas apostas no bar da vila, para que desta maneira descobríssemos a origem do rapaz. Uns, menos exaltados, diziam que ele era um anjo caído do céu, outros, mais maldosos, afirmavam que o rapaz só podia ser de família rica e que, com certeza, havia fugido do conforto e da luxúria, pois gente rica não prestava. Bem… naquela noite, na tentativa de saber qual era a procedência do moço, desperdiçamos horas de uma reunião sem sentido e sem provas… apenas em ridículas especulaçãoes e diante de um fracasso total, mais uma vez, ninguém chegou a conclusão alguma, assim, aquela questão ficou mesmo sem resposta… como sempre!
Por outro lado, isto é fato, nos serviu de pretexto para uma noitada e tanto. Não houve, entre os homens presentes, naquele bar, quem não tivesse saído satisfeito com aquele encontro: O bar do Seu Zé faturou “um a mais” dos beberrões, que tomaram muitas a mais até altas horas da noite, sob a puritana alegação, às boas esposas inconformadas, de termos participado de uma Reunião Extraordinária e de Assunto Confidencial e Inadiável para o Bem de Nossa Estimada Vila!! Fingimos esta verdade e elas verdadeiramente nunca acreditaram em tamanhas mentiras, mas diante da farra em que envolvia quase todos os homens da vila, menos o alvo de nossas discussões, o bom rapaz, não houveram maiores problemas e discussões de relacionamentos.
Sobre aquela festança inesperada, apenas recordo que, com os ânimos alterados e a bagunça gerada, numa noite agitada e de aparência alegre, as dúvidas viraram canções, depois viraram brigas e que voltaram a serem canções novamente, em uma das mais bem sucedidas orgias de confraternização já promovidas naquele fim de mundo.
De certo, o que na realidade poucos sabem com convicção, era como exatamente tudo acabou, pois a bebedeira foi geral e a falta de lembranças claras, também. O que vimos, foi que no outro dia, a ressaca e a sonolência corriam soltas, além da segunda maior questão que havia surgido por aquelas paradas, além da famosa questão sobre de onde provinha o belo e justo rapaz, agora todos não paravam de perguntar, ruidosamente: Para onde ele havia ido, pois como fumaça, o rapaz mais gentil e prestativo já conhecido, nunca mais foi visto depois daquele dia!!!

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Uma resposta para “Um Anjo e Uma Vila!!!

  1. Ah! Estou me sentindo uma leitora enganada! (Rs.)

    Cadê aquele final em que eu ficaria sem entender, até mesmo meio frustrada, hum?

    Você escreveu um texto que me surpreendeu, Marcelo, até mesmo pelo tamanho. Bom, pois vejo que você tem se inspirado bastante (rs)!

    Suas descrições (sua voz como narrador do conto) estão se superando… Os detalhes que você insere provocam a imaginação, revelam muito do que está se passando no ambiente. Talvez isso até tenha alguma relação com a sua alma ilustradora, que consegue revelar muito por meio da imagem… Eu, por exemplo, ainda não sei desenhar tão bem com palavras.

    No mínimo, achei enigmático (rs). Adorei, simplesmente. Há coisas que acontecem assim, sem explicação. Alguém chegou “do nada”, soube a que veio, veio para fazer toda a diferença e, no momento em que tinha de ir, assim o fez. Mas, sem dúvida, ele fará muita falta na vila dos pescadores (rs).

    Inté!

    Iara Mola

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