Separados por um muro!

De estatura pequena, bonitinha e em seu mundinho perfeito. Alimentava seus sonhos em seu cantinho, quietinha e bem protegida.
Tão educadinha e feliz…
…Mas nada sabia sobre os perigos da vida, logo ali, do lado de fora do muro.
Ela morava na mansão de seus pais e tinha um quarto só para ela, que se divertia até tarde, na internet, ouvindo músicas e batendo papos com os amigos/namoradinhos.
Ela sabia do muro e quase tudo sobre as coisas do muro para dentro, mas do muro para fora… quem sabia mais, não era ela!
Seu futuro era promissor… sua vida era promissora, suas idéias e certezas também… mas as dele, não! Nem pensar… não seria daquela maneira!
De estatura pequena, jovem e fedorento, ele era um desses miseráveis que se arrastam pelos cantos da cidade grande e que tem a cor, o cheiro e o andar tão misturados nela, que ninguém nota e se nota… quer distância.
Ele sabe tudo do muro, quando foi feito, por quem e quanto tempo levou para ser construído.

Tão sem educação e infeliz…
Mas nada sabia sobre as belezas da vida, logo ali, do lado de dentro do muro.
Ele morava em um buraco do muro da mansão, em uma falha dele. Na parte voltada para o rio, que passava nos fundos esquecidos… isolado, quase imperceptível, diante da grandeza daquele lugar… então, ali fez moradia… ou melhor, esconderijo. O muro era o seu quarto… só dele. Não sabia o que era a tal da internet, mas estava sempre informado, com a leitura diária dos jornais e revistas que encontrava pela rua.
Solitário, seu melhores romances, ou foram pagos, ou foram em momentos de embriaguez, que geralmente, nunca se lembrava.
Ele sabia do muro e sabia quase tudo sobre as coisas do muro para fora, mas do muro para dentro… ele nada sabia!!!

Ela sonhava em sair dali… fugir daquela casa de muros altos… daquela cidade e saber mais sobre as coisas do mundo!

Ele sonhava em sair dali… fugir daquela casa de muros altos… daquela cidade e saber mais sobre as coisas do mundo!


Um dia, chegou uma notícia de que um navio passaria e ficaria por breves dois dias e, então, partiria daquela cidade, em uma espetacular viagem pelos quatro cantos do mundo!
A imaginação rolou solta e com a devida propaganda, elaborada e executada pelos dirigentes de uma companhia de viagens, ordenada pelo construtor do tão desejado navio… todos ficaram sabendo tudo sobre suas luxúrias e histórias incríveis, que envolviam: Amores ardentes, romances rápidos, paisagens paradisíacas e aventuras sem fim. Foi assim que, com aquele belo marketing, naquela cidade fria, de muitas luzes, carros e prédios, a mágica funcionou! Fizeram com que o quase impossível acontecesse… brilhar e pulsar, até mesmo, nos corações mais obscuros, uma pontinha de desejo de embarcar naquelas incríveis histórias e ceder aos seus encantos.
Desta maneira, sob o efeito de uma sedutora noite de lua cheia, onde os impulsos se tornam realidades, duas pessoas se dirigiram ao navio com a certeza de que suas vidas iriam mudar para sempre… e cada uma, a sua maneira, exatamente no dia da festiva partida do “Aventura”, nome do gigantesco navio… se infiltraram a bordo… cheios de expectativas e ilusões, rumo ao desconhecido…

Disto tudo, apenos afirmo que, eles tiveram milhares de experiências e retornaram muito diferentes:
Ela, menos sonhadora e mais conhecedora das maldades do lado de fora do muro.
Ele, com uma visão menos sofredora e cheio de sonhos do lado de dentro do seu muro!

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4 Respostas para “Separados por um muro!

  1. Marcelo,

    cá estou, pensando na menininha bonitinha, educadinha, quietinha, sentada num cantinho dentro do seu mundinho perfeito, de onde parece ser possível achar que se é bastante feliz.

    Tenho um amigo que é tenente. Anos atrás, quando nos conhecemos, o que mais o aproximou de mim foi o fato de “se maravilhar” com o “mundo cor de rosa” onde eu vivia, completamente diferente da realidade que ele conhecia de perto, dadas as experiências do dia a dia. E eu não entendia quando ele achava graça do meu otimismo excessivo – achando que o mal não era uma escolha consciente, mas a ignorância característica dos seres que, simplesmente, ainda não conheciam todas as possibilidades de que usufruímos ao sermos pessoas de bem.

    Lendo sobre a menininha, sinto como se, por alguns momentos, a sua narrativa também descrevesse a Iara de outras épocas, cuja fonte ainda permanece dentro de mim e estará sempre viva em minha essência. Mas hoje isso faz parte da Iara menina, que se submete ao domínio da mulher mais madura e do ser humano com muito mais vivências, embora a idade ainda não seja muita.

    É relativamente fácil idealizar o mundo quando se está à parte dele, sob algum tipo de “proteção”. De tempos para cá, percebo o quanto esse idealismo se faz presente na juventude, em todas as épocas. Ideais de amor, de paz, de justiça… são todos “verdades” tão particularmente absolutas que carregamos por tanto tempo… até que a realidade se encarregue de demonstrar que há sempre muitas coisas além do que se acredita – e, sobretudo, que “há sempre algo a mais além do que se vê”*.

    ***

    “De estatura pequena, jovem e fedorento, ele era um desses miseráveis que se arrastam pelos cantos da cidade grande e que tem a cor, o cheiro e o andar tão misturados nela, que ninguém nota e se nota… quer distância.
    Ele sabe tudo do muro, quando foi feito, por quem e quanto tempo levou para ser construído.”

    ***

    Marcelo, seu texto dá margem à interpretação que tenho em mente, ainda que possa não ser essa a proposta. Mas a ideia que você conseguiu elaborar foi tocante, perfeita. “Ele” sabia tudo sobre o lado de fora do mundo separado pelo muro. “Ele” sabia tudo sobre a “vida real”, onde todas as coisas acontecem. “Ele” estava literalmente inserido no “meio”; era uma parte da rua, do movimento da cidade. Porém, veja a provocação do paradoxo que você cria: “ele” estava inserido no meio, era parte dele e, conquanto fosse uma parte, a tal ponto de realmente se misturar, “ele” estava à margem… Embora fosse um ser “ativo”, era um “elemento passivo”, que sofria o reflexo das ações daqueles que construíram o mundo. Daqueles que podiam, por exemplo, ser os pais da menina. Eles estavam suficientemente protegidos pelo muro que levantaram em volta. A eles fora delegado o poder de construírem a proteção em torno da sua casa e de definir quem lhe teria ou não acesso.

    ***

    “Ele morava em um buraco do muro da mansão, em uma falha dele. Na parte voltada para o rio, que passava nos fundos esquecidos… isolado, quase imperceptível, diante da grandeza daquele lugar… então, ali fez moradia… ou melhor, esconderijo. O muro era o seu quarto… só dele. Não sabia o que era a tal da internet, mas estava sempre informado, com a leitura diária dos jornais e revistas que encontrava pela rua.
    Solitário, seu melhores romances, ou foram pagos, ou foram em momentos de embriaguez, que geralmente, nunca se lembrava.
    Ele sabia do muro e sabia quase tudo sobre as coisas do muro para fora, mas do muro para dentro… ele nada sabia!!!”

    ***

    Outro paradoxo, Marcelo… “Ele” era tão parte do mundo de fora que, do lado de dentro, nada sabia…

    Quantos de nós ainda não transitamos entre essas polaridades, sem encontrar um ponto de equilíbrio entre as duas distâncias?… Ao nos aproximarmos demasiadamente de alguma coisa, acabamos preterindo a outra, que, coincidência ou não, se encontra na mesma linha…

    E, quando pensa na troca de experiência entre as pessoas, é assim que vejo… Não se trata de “complemento”, mas de “acréscimo”… Por um instante, desejei que esses personagens tivessem se conhecido. Não para viver um romance, mas para se compartilhar e agregar.

    Excelente texto.

    Iara Mola

    *Verso do poema “Sujeito Oculto”, de César Magalhães Borges, em “Canto Bélico”, cuja editora não recordo, sendo lançado em 2003 (segunda edição).

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