Guerra de grafite!

– Prazer! Sou o ilustrador que conversou ontem de manhã com o senhor… pelo telefone.
Disse isso ao senhor careca e de pele esbranquiçada de escritório, com seu olhar engrandecido pelos óculos de miopia e a expressão de quem compreendia a minha presença ali… naquela sala restrita.
Falava com ele, enquanto algo estranho acontecia nos fundos daquele lugar gigantesco. Um grupo de pessoas, que sentavam bem lá no fundo, me olhavam de forma diferente… e com a minha mania de perseguição disparada, senti que não era bem-vindo!
Saquei na hora… eram os ilustradores mais antigos da empresa, que por estar com excesso de trabalhos, resolveu a contragosto deles, chamar alguns “Frelas”… no caso, eu!
As pessoas são como os animais… marcam território e, por isso, odeiam invasão!
Se fôssemos bichos, talvez viessem me cheirar… rosnar para mim! O mais gordo do grupo de cinco ilustradores, talvez começasse a mijar pela sala inteira… como quem diz: – Aí! Você não é bem-vindo e esta merda toda é minha!!!rsrsrs
Ilustrador é igual a nadador… somos sozinhos!
Não se desenha em grupos, fora grafites gigantescos, que podemos, neste caso, chamar de revezamento… na comparação ao nadador! Mas isto é outro caso… outro grupo.
Geralmente, ou na grande maioria, somos assim… sós e cada um por si. Por isso, no caso de um livro novo… não há o prazer de dividir, de agregar, de se dizer: Estamos juntos aí… hein, galera?! Ou é meu… ou é dele!!! E isso, faz de mim um rival… um oponente… uma pedra no caminho!rsrs
Fui apresentado ao grupo, que me receberam com a frieza esperada e logo na seqüência, fui solicitado a adentrar em uma sala pequena, ali por perto, com as portas de vidro transparente, na intenção de que o senhorzinho simpático, pudesse analisar meu portifólio.
Ele falava comigo, enquanto passava calmamente folha por folha, da pastinha que continha meus trabalhos.
Eu já conhecia cada uma daquelas ilustrações e sinceramente… mesmo sendo eu, o guardião de minhas obras e sem querer desrespeitá-lo, tudo o que eu mais queria, era pegar algum trabalho e ir embora logo, pois o grupo do lado de fora, que eu podia ver através daquelas portas de vidro que nos cercava, parecia estar um pouco agitado.
Mesmo com toda a simpatia da figura agradável, do respeitável senhor que me entrevistava, podia, ao mesmo tempo, perceber as más intenções de meus oponentes… que desenhavam homenzinhos na forca e cabeças em bandejas!
O senhor, que havia gostado de meus trabalhos, se levantou de onde estava sentado em determinado momento e foi até a sua outra mesa do lado de fora daquela salinha, com seus passos lentos, para pegar um cartão de visita, ou algo do gênero, o que me deu tempo suficiente para sacar uma folha e um lápis e desenhar rapidamente uma arma, um revólver, onde apontei para o grupo do lado de fora, que me mostrava seus desenhos ameaçadores… então, fiz sinal que aguardassem e rapidamente estiquei uma bandeirinha do cano de meu revólver e escrevi: Bang!
Eles, não acreditando em minha audácia, começaram um desafiador jogo de personagens que, atacavam, gritavam, guerreavam, onde eu, cuidadosamente e em menor número, me defendia como podia.
Paramos nossa brava luta, quando o senhor retornou com seu cartão em punho e a promessa de trabalhos futuros.
Me despedi educadamente de meus valorosos oponentes, que, igualmente educados, me cumprimentaram sem mágoas. Enfim… não sei se ganhei ou perdi aquela batalha alucinada e silenciosa, só sei que fui solicitado dias depois, para ilustrar um livro… que coincidentemente, era sobre guerra!!!rsrsrs

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