O Sorriso!

Um dia destes, caminhava sem rumo pela praia.
Estava sem motivação e sem empolgação… quase sem fé… nem no que via e nem no que não via!
Era quase um pedaço de qualquer coisa… o peito doido… os braços gelados!
Eu, um homem velho e cansado, numas destas encruzilhadas da vida…
Me sentia tão cansado e triste que já não podia nem mesmo comigo… perdido… como não queria ser!
Se você me visse, não acreditaria… creio que não me veria! Derrotado… como não podia ser!

– Fases! Acredite! Escutei perto de mim, alguém que me dirigia a palavra.

Desconfiado e de cara feia, como passei a ser… fechado, sozinho e a cara assim, sempre feia… um robô!
Não queria conversa, mas o moleque que estava ao meu lado resolveu insistir com aquele papo.
Ele tinha uma prancha debaixo dos braços, os cabelos desgrenhados, a pele bronzeada e um sorriso no rosto!

– E ai Brou? Disse animado.
Odeio estas conversas de surfista… não é para mim… um homem serio, mesmo porque, não entendo o que dizem… é muita alegria pra mim! Sou apenas um velho destruido!
– O que tá pegando Man? Perguntou, com seu constante ar de felicidade… aquela maldita felicidade, sabe-se lá do que?
Ironicamente, apenas mostrei-lhe as mãos… dando a entender que as mãos pegavam e que não entendia suas expressões sem sentido!
– Qualé cara… tá desanimadão demais… olha este mar… esta natureza!!! Dizia com uma animação inapropriada para meu estado de espírito.
– Então, porque você não vai aproveitá-la? Respondi querendo me livrar do pentelho… com o pensamento ainda mais atrapalhado!
O bom humor e o prazer dele, por estar diante de um monte de água, me irritava ainda mais! Só podia estar drogado! Pensei, com o costumeiro humor pesado.
Contrário do que eu imaginei, ele não se perturbou com minha “patada”… ele riu ainda mais!
Acabei rindo também, afinal… o que eu podia fazer… aquela merda toda era pública!!!
– Tá certo brother… tá certo!!! Você tá de bode! Normal…
Nem respondi… apenas balancei a cabeça afirmativamente.
– Ei! Cadê aquele cara sorridente? Me perguntou quase em tom de seriedade… faça-me o favor…como se essa gente fosse capaz de ter este tipo de sentimento… ou cabeça para isso. Pensei cheio de preconceito!
Fiquei olhando para o horizonte e respondi:
– Olha! Uma onda… porque você não pega sua bóia e cai pra dentro?
– Tô vendo que tem uma alma aí dentro… ele respondeu contente. – Aí, tô ligado… se você quis me “zuar”, falou do jeito certo!!! Hoje eu já caí com a minha bóia e peguei várias!!! Continuava a querer assunto, o pirralho descabelado!
– O que você quer rapaz? Porque está me pegando pra Cristo? Perguntei irritado.
– Cristo? Pô, aí.. na moral… você tá meio redondinho pra Cristo… brou!!! e caiu na risada
– Tá bom! Você já tirou o seu baratinho… eu tenho espelho… sei que estou gordo…agora cai fora! Disse louco de vontade que ele sumisse do mesmo jeito que tinha chegado… rápido!
– Calma lá tiozão, tô na boa! Só estou aqui porque tenho algo pra você… aí…mandaram te entregar! Falou o rapaz contendo a risada, enquanto pulava um pequeno murinho para buscar algo. Detrás daquele muro, ele retirou uma coisa que eu já não via há muito tempo! Era uma pranchona vermelha, parafinada!
– Acho que você se esqueceu disso… e faz tempo hein?!!! Falava enquanto arrastava até mim uma prancha 9’2… um pranchão.
– Qualé tiozão da cara feia? Abraça tua amiga aí! Ela estava há muito tempo esquecida… e na boa? Ela manda muito bem!
Fiquei muito incomodado com aquilo, como aquele moleque sabia da minha pranchona? Porque ele estava com ela? E porque ela estava tão conservada?
– Não a reconhece? Dizia com cara de quem sabia de tudo.
Pensei em negar, em dizer que ele estava maluco, que tinha se confundido… mas antes que eu dissesse qualquer coisa, ele apontou para a parte de baixo dela… e logo ali, do lado da longarina: O meu nome! Escrito pelo Shapper… revelava desta maneira, que eu já fui dela e ela era mesmo minha.
– E aí brother? Vai ficar com essa cara de bunda… ou vai pegá-la? Ria o menino… Esse tronco pesa!!!

A princípio, me envergonhei, quase neguei novamente, mas quando ele a chamou de tronco… me despertou um ciúme… uma inconformidade… o cara ofendendo minha Pranchona… só pode estar maluco!
Então respondi com cara de gozação:
– Tira as patinhas cabeção… já vi que você não tem noção de quem você está segurando! Vai curtir sua pranchinha de moça… que esta aqui é pra homem!
Ele deu risada, como se me reconhecesse de novo. Como se soubesse que ali ainda tinha uma alma! Um ser vivo!
Não me disse mais nada, apenas apontou para o mar… era hora de voltar a vida… e numa pequena distraida, enquanto eu confirmava as ondas para o meu pranchão… ele sumiu… como fumaça… exatamente como havia chegado!
Não! Eu não entrei no mar logo que a peguei! Mas fiquei um bom tempo a admirando… a querendo bem! Relembrando de mim nela… como se ela fosse um espelho de imagens congeladas… um DVD com imagens gravadas… me vi sorrindo… e me lembrei de cabelos desgrenhados… de pele bronzeada! Eu já fui uma boa pessoa!
Nos separamos… eu me afastei… e sai perdendo! Como sempre!
Analizei minha vida… as boas pessoas que conheci… as muitas derrotas e vitórias!
Não sei dizer se valeu a pena! Se pudesse pegaria outros caminhos?! Não sei!!!
Ei!… Mas agora já foi! Pensei.
Meio sem jeito, um pouco confuso, um pouco atrapalhado… tirei a camisa de tiozinho… lamentando a bermuda inapropriada para entrar na água… e entrei com a minha velha companheira!
Foram as piores e mais divertidas ondas da minha vida… os “Retosides” mais prazerosos e mal pegos e ainda assim, mais uma vez, o melhor dia da miha vida! Como costumava ser!
Tudo aquilo foi um mistério…aquele dia foi um mistério… mas agradeci em pensamento ao menino, por me trazer de volta a minha alma… meu sorriso desaparecido!
Eu redescobri que ainda tinha um… e era um belo sorriso.

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3 Respostas para “O Sorriso!

  1. Ah, Marcelo!

    Um sorrisão ficou no meu rosto por quase todo o tempo em que li o seu conto.

    Que bom-humor há nesse diálogos!

    Fiquei imaginando o rosto do “moleque” na sua empolgação juvenil… Curiosamente (ou não, rs), hoje eu escrevi sobre o meu dia de trabalho. Aliás, acabei de escrever, e pensava exatamente nessas “coisas” que surgem “do nada” e nos arrancam belos sorrisos…

    O “moleque” foi um “mediador”… A “coisa” em si foi a velha pranchona do personagem, não foi?

    Pois bem. Enquanto escrevia sobre tartaruguinhas, toupeiras com cocô na cabeça e princesas que soltam pum, sorria e ria, pensando naquelas “coisas” simples que nos mantêm vivos entre as dificuldades do cotidiano apressado. E então, no meu desabafo compartilhado pela palavra registrada, veio à mente os versos afinados:

    “Dizem que louco por pensar assim (…)
    Mas louco é quem me diz que não é feliz….”

    Acho bem possível que pessoas como nós, que se atrevem a escrever sobre o que pensam, aquilo que sentem e a respeito de dezenas de outras coisas que sequer experimentaram ao longo da vida, sejam, no fundo “loucas” (rs). Mas gosto de pensar num ditado que diz que, “de perto, ninguém é normal”. Por que nós nos arriscaríamos a sê-lo, não é? E se o que “deslumbra” o personagem é a pranchona vermelha parafinada, que seja, e que ele seja feliz! E se pintá-la de roxo e amarelo deixá-lo ainda mais “bobo”, de tão feliz, que ele compre as suas tintas e assim o faça! Outra filosofia muito particular é exatamente esta: melhor bobo alegre do que bobo triste, “sacou” (rs)? E sempre é tempo de redescobrir o sorriso que emana da nossa alma, diante daquelas coisas que ela reconhece como assumidamente especiais.

    A parte do diálogo está muito hilária, Marcelo. Você é um ótimo contista. Particularmente, acho que você se sai muito bem em histórias assim, conquanto eu também aprecie aqueles seus textos mais reflexivos, aparentemente pessoais. Mas o seu jeito de contar histórias é ímpar! Parabéns!

    Até,

    Iara Mola

  2. Aff! Meia-noite; cadê o revisor da madrugada? (Rs.)

    Em vez de: “(…) veio à mente os versos afinados:”, deveria ter escrito que “(…) vieram à mente os versos afinados (…)”, mas a revisora já tá dormindo! (Rs.)

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