Encerrando meu Blog.

Obrigado aos que acompanharam meu Blog!
Estou encerrando ele por aqui.
Talvez comece outro, com outro nome, com outras intenções.
Aos Diabéticos… se cuidem, vocês nunca terão a tal da cura.
Aos amigos que conheci por aqui, valeu! Foi bom. Estou por aí, no Facebook e outros lugares, até segunda ordem.
Aos que se ofenderam, a vida é assim mesmo, nem todos conconcordam com nossas idéias e revoltas, as diferenças existem e nos fazem pensar.

Ao mundo… Adeus!

Apenas mais um fim…

Vi seus olhos desviarem de mim! Talvez envergonhados, talvez por não poderem me ajudar!
Um olhar frio e distante, quase uma outra pessoa! Sem brilho, sem vida… parecia ter morrido primeiro do que eu!
Não me colocaram um capuz ou uma venda… exatamente como eu havia pedido… pois queria ver pela última vez… me despedir daquele lugar!
Lembrei dos dias de muita Luz e de alegria, mas não chorei… não por coragem, mas porque já não haviam lágrimas!
Lembrei de momentos de satisfação e amor… do quanto fui querido… antes de tantas bobagens… tanta crença sem sentido!
Visualizei ao longe as florestas por onde andava… onde a conheci! Éramos tão cheios de amor e de paixão!
Dois jovens! Cheios de coragem, saúde e alegria… aqueles encontros nos faziam ainda mais fortes, mesmo “proibidos”!

Quase podia sentir seu perfume de onde estava… tão linda!

Me chamam de Bruxo… Sou alguém com a responsabilidade de curar muitas pessoas, conforme meu Mestre havia me treinado e confiado.
Daqui, posso ver também os rostos de muitas das pessoas que curei e ajudei. Sim! Quase a maioria!
Hoje, algumas me jogaram pedras, me cuspiram, despejaram suas decepções sobre mim, me culpando por algo que eles imaginavam ser minha responsabilidade.
Já senti raiva, já chorei e me desesperei… o fim sempre é difícil!

Dizem que sofri também em vidas passadas!
Um amigo disse que os padrões se repetem… será que era a isto que se referia? Estava condenado a ser sempre assim? Ou será que ele havia me condenado a ser sempre o mesmo… fosse qual fosse meu esforço por ser melhor?!!!

Ela se virou antes que meu chão sumisse… antes que o ar me faltasse…
As pessoas estavam impacientes, eufóricas. Uns por me quererem bem demais, outras por me odiarem.
Sentia medo… é verdade, mas também sentia alivio… chega de tanta agonia e de tanta farsa!
Não era mais responsável por ninguém… uma Luz se apagava ali e se acendia em outro lugar…
Foi o que me pareceu… apenas uma passagem!
Estranhamente não sinto bronca de ninguém e nem quero vingança… apenas acabou!

Uma bela comédia!

– Olha! Começou a falar todo empolgado – Um movimento… um pequeno e aparente ato inocente e eu já vi algumas histórias mudarem completamente! Disse-me com sua cara bolachuda e engraçada! Sempre de bem com o mundo!
Começou a apontar algumas figuras que passavam por ali, deixando claro que sabia da vida de todos daquela praça onde estávamos.
Então, ergueu seus dedos rechonchudos e avermelhados, graças ao corante da pipoca doce que comia barulhentamente… e os estalou, fazendo com que o tempo parasse… congelasse! Depois daquele ato impressionante, em que todos daquela praça ficaram parados no mesmo lugar, com uma cara de boneco de cera, ele ergueu-se do banco onde estávamos com uma habilidade e rapidez impressionantes para o seu tamanho. Ele era um homem com um pouco mais de 200kg e altura acima dos 2 metros… passava entre as pessoas congeladas, cutucando-as e fazendo caretas, todo orgulhoso de si. Tinha um belo e chacoalhante sorriso, que só os muito obesos possuem, como se quisesse provar para mim que havia mesmo parado o tempo e que por isto, queria minha aprovação, assim… parecendo um garoto exibido. Mas, como percebeu que eu já não prestava mais atenção nele, pois estava impressionado com o que via, enquanto verificava distraído aquele cenário improvável… deu uma pigarreada, como se tivesse alguma pipoca enroscada em sua garganta, se vestiu em seu personagem de pessoa séria e começou a me explicar:
– A vida é mesmo maluca! Não é mesmo? As vezes acontecem coisas tão desapercebidas, mas que em segundos a transforma completamente! Falou esquecendo mais uma vez de sua seriedade, enquanto enfiava mais uma considerável porção de pipocas na boca: – Por exemplo! Continuou sua explanação com a boca lotada de pipocas – Aquele rapaz de terno e gravata logo ali. Ele nem imagina que vai conhecer a mulher da vida dele, daqui a mais ou menos… cinco passos!!! Aquele senhor do outro lado da praça está prestes a receber um telefonema de sua filha! Ele acaba de se tornar avô! E ele vai ser um ótimo avô! Mesmo que por pouco tempo!!! Parou para refletir sobre o assunto, como se visse algo além… e depois… prosseguiu: – Aquele menino na balança vai ter ódio de andar descalço na grama para o resto da vida dele, pois vai pisar em uma lesma nojentíssima!!! Falou da lesma, enquanto mudava de expressão, para dar uma gostosa risada, como se fosse a melhor piada que já fizera!
– Aquela menininha vai sonhar em ter cachorros grandes para sempre, porque aquele cachorrão ali, você está vendo? Com aquele rapaz olhando as nádegas daquela mulher! Riu mais um pouco, respirou fundo e justificou: Distraído como está, diga-se de passagem por um belo motivo, referindo-se à moça das nádegas grandes! – Vai deixá-lo escapar e o cachorrão vai direto para a menininha. Então, eles vão brincar muito e como este vai ser um dos melhores dias neste parque para ela, vai relacionar ao cachorro, por isso, vai procurar um igual a este por muito tempo. Creio, que ela terá um cão parecido como este, apenas com uns quarenta e poucos anos!!! Disse pensativo, entre uma pipoca e outra.
– Sei que você não pode ver o que vejo e nem saber o que sei, mas há também situações interessantíssimas por aqui! Por exemplo, vê aquele menininho ali, todo cagado de lama? Vai ser o futuro presidente do país!!! Bom, pelo menos ele está bem acostumado com a sujeira! E riu me cutucando com o cotovelo!
– Aqueles dois rapazes vão ter uma briga feia no futuro, por causa de uma menina que mora naquela casa ali, mas o que eles nem imaginam, é que ela odeia homens!!! Ela vai se juntar com outra mulher, que vai conhecer em uma viagem pelo litoral!!! Seu bom humor e a maneira como me contava as coisas, me faziam rir quase o tempo inteiro, o que me fez pensar bastante, como o ser humano era mesmo estranho, afinal, visto pelo ângulo do gigante, tudo era mesmo muito cômico, ou melhor, mais engraçado do que trágico!
– Tudo é mesmo uma comédia!!! Deixei escapar meu pensamento em voz alta. O gigante parou de falar, me esboçou um sorriso compreensivo, mas sem exageros desta vez, talvez querendo ser respeitoso aos meus sentimentos tão humanos. Me ofereceu pipoca como se quisesse me consolar, depois disse antes de desaparecer e deixar as coisas voltarem ao normal: – Creio que você captou a mensagem!!!
Logo depois que sumiu, vi o rapaz tropeçar em uma moça muito bonita e parar para conversar com ela. O velho recebeu uma ligação, a moça lésbica saiu de sua casa, sob os olhares atentos dos dois rapazes…
Pensativo, mas bastante tranqüilo, chutei uma bola para o futuro Presidente da República enlameado e fui embora assoviando, pois no fundo… a vida é mesmo uma comédia!!!rsrsrs

Na selva.

Ele era um índio daqueles que falava pouco, se mantinha isolado e distante das pessoas.
Vivia do que caçava e pescava, dentro de uma floresta tão imensa, que ele nunca havia visto absolutamente nada das coisas do mundo civilizado.
Em um belo final de tarde, em uma dessas caçadas ainda mais isoladas, onde ele estava completamente afastado até mesmo dos outros poucos índios que conhecia… resolveu se deitar próximo a uma cachoeira e ao som da natureza… dormiu!
Aí é que tudo aconteceu… o pior pesadelo de um cara pacífico e amante da natureza… surgiu!
Ele acordou dentro do seu pior pesadelo: Ele se viu dentro da mais populosa, agitada e perturbada cidade que o mundo podia proporcionar!
Carros de escapamentos abertos, gente de peles muito diferentes da dele, de cabelos coloridos, de tatuagens, correntes, roupas rasgadas, óculos escuros, bonés, gravatas, sapatos.
Eram mendigos, trombadinhas, malucos e malucas drogados, de caras fechadas e sorrisos maldosos…
Ao som de música eletrônica, rock, funk, samba…
Frios, intolerantes, briguentos, fedidos de maconha, cigarro, bebidas e suor!
Irritação, trânsito, skate, bicicleta, carroça, sirene, prostitutas chamando e pessoas correndo!!!
Medo, confusão, desespero… se esconder sob olhos odiosos, maldosos, sarcásticos… debochados!
Choro, pressão, coração acelerado… dor!!!
Corre e não chega… corre e piora!!!
Loucura, fedor de mijo, de cachaça, de sujeira!
Descalço no chão sem terra, sem afinidade, sem carinho… sem chance véio! – Perdeu!
Mão na cabeça, mão na cara… mão presa!
Empurra, grita, esperneia… apanha… se borra… – Seu merda!!! e apanha mais!

De repente… num susto, num choque, num tranco… volta a si!
E em um salto se ergue! Lá no silêncio da selva, da mata fechada… lá longe… isolado, sozinho, escuro!
Respira fundo o ar puro… o ar livre!
Salvo… na selva!

– Corre o risco, quem não tem juizo!

– Corre o risco quem não tem juizo!
Disse o velho cego, quando passei por ele.
O que ele sabia de mim? Afinal, aquela frase só podia ser para mim!
Ali, naquele beco vazio, só estava ele e eu. Era uma ruazinha pequena, quase sempre deserta e que por dar acesso à uma rua onde ficava minha agência, sempre a utilizava.
Ele é conhecido como: “Guru, o bom de conselho”…
– Bom conselho? Bom pra quem? Pensei indignado. Só se for para os outros mesmo, nisto ele até podia ser bom, mas para ele mesmo!!! Acho que não tinha muita imaginação… finalizei meu pensamento, ironicamente… por puro sarcasmo!
– Corre o risco quem não tem juizo! Repetiu, assim que passei diante dele.
Juizo? Do que ele poderia estar falando? Eu sou uma pessoa séria, honesta, trabalhadora. Um bom pai, bom marido, um bom amigo… um bom profissional!
– Ora velho! Cale a sua boca! Reclamei alto e sem piedade.
– Bom assim… você não é! Exclamou o velho seguido de uma risada catarrenta e depois continuou: – Sei, sei! Será? Você pode ser bom em outras coisas, mas não é uma boa pessoa. Arrogância, meu filho… não o torna melhor do que ninguém… apenas o torna pior que os demais!!! Falou o Velho como se soubesse o que eu havia acabado de pensar.
– Filho? Não me envergonhe! O que você sabe disso? Como se reporta a mim com esta falsa autoridade? Não vê que sou um executivo e bem sucedido? E você? Guru de quem? Só vejo um velho cego de rua… um mendigo? Respondi alterado, cheio de energia e com a minha melhor voz, de gente de sucesso… autoritária… a mesma que funcionava no escritório, nas minhas decisões imponentes… onde meus inferiores tremiam!!!
O velho me encarava com seus olhos esbranquiçados, como se soubesse exatamente onde eu estava… e falou:
– Não sou eu quem digo… apenas transmito as mensagens! Fez uma pausa e completou sua profecia – Hoje você terá a chance de rever sua situação, suas certezas e posicionamentos. Você correu o risco… então, vamos julgar o seu juizo! E eu agradeço por finalmente encontrá-lo…
Me sentia ofendido com o desafio do miserável e não acreditava que estava dando forças para aquele velho maluco.
Irritado como estava, virei de costas para deixá-lo falando sozinho, como sempre fazia com as pessoas que me desagradavam… para humilhá-las e as fazer entender quem mandava ali. Desta maneira, continuaria meu caminho para o sentido que já estava indo… mais uma vez vitorioso. Porém, inconformado demais, como ainda me encontrava, dei uma última virada em sua direção, para mandá-lo para o Inferno, mas estranhamente… ele não estava mais lá!!!
É certo que aquilo me arrepiou, pois não haviam portas, janelas e nem nada onde ele pudesse ter se escondido… assim… tão rápido. Mas, não demonstrei fraqueza e como sempre, continuei seguro de mim. Segui o meu caminho, tentando ignorá-lo.
Arrumava minha gravata e recumpunha meu visual impecável, quando de repente, não sei se foi por causa do inesperado nervosismo, ou por praga daquele velho maldito, senti uma forte dor no meu peito.
Parei e respirei aflito… mas uma segunda pontada aconteceu… e quase sem fôlego… caí no chão… indefeso… petrificado!
Fiquei naquela situação por alguns longos minutos… em desespero e agonia. Tentava chamar por socorro, mas ninguém me ouvia, talvez por ser um final de semana prolongado, por causa destes muitos feriados malucos, onde a cidade pára e tudo fica vazio. Ali, já era raro alguém passar, naquela hora da manhã então… pior ainda…
Sentia dor, falta de ar e estava completamente imóvel… até que, finalmente, dois rapazes novos e barulhentos passaram por aquele caminho. Fiquei feliz, pensei em socorro, em alívio… em ajuda!
Mas, não era o que tinham em mente, pois estavam visivelmente embriagados e com suas garrafas de bebidas alcoólicas quase vazias, só estavam mesmo interessados em farra e em bagunça no último grau.
Devido a euforia de quem está sob o efeito do álcool, deitaram do meu lado, me abraçaram e derrubaram uma grande quantidade daquela bebida sobre mim, sobre meu rosto paralisado… tentavam me fazer beber com eles… mas eu era quase um morto. Tudo o que conseguiram, foi dificultar ainda mais minha respiração.
A generosidade e a solidariedade deles, não era para o momento, pois além de me encharcarem com suas bebidas de péssima qualidade, aproveitaram minha fragilidade, ou minha aparente morte, para roubarem quase todos os meus objetos pessoais…
Fiquei apenas com a camisa toda amarrotada, pois a amassaram e rasgaram em uma tentativa frustrada de retirá-la de mim e a calça com os bolsos virados do avesso… o resto… eles levaram tudo!
Tentei me mexer… o que acabei conseguindo, mas com bastante dificuldade, movimentos limitados e com aquela estranha dificuldade momentânea, apenas consegui me sujar ainda mais ao me esfregar no chão, que estava enlameado pela chuva da noite anterior… o que deixou meu aspecto deplorável!
Eu que só andava bem vestido… naquele momento, eu era um moribundo jogado num beco qualquer.
Lembrei do velho cego rindo dos meus insultos e quase pude ouví-lo me dizer: – Quem é o miserável agora?
Diante de tamanha dificuldade tentava chamar por socorro, mas meus gritos sem sentido, verdadeiros grunhidos e murmúrios… apenas afastavam ainda mais as poucas pessoas que por ali passavam. Houve até mesmo uma mulher com uma criança, que se afastou assustada, dizendo para a filhinha que era muito feio beber, pois acabava naquela situação… em que me encontrava. Me senti humilhado e revoltado!!!
Fiquei naquela situação durante o dia inteiro… e vi a noite chegar ameaçadora com seu frio e a escuridão… tão assustadora!
A noite é impressionante… pois ela tem uma energia específica… ela pode ser negociadora ou impiedosa… no meu caso, daquela noite propriamente dita… a pior delas!!!
Ela não veio negociar, como geralmente vinha… mostrando os meus erros e dificuldades diárias. Ela estava ali para me cobrar, me jogar na cara as muitas verdades que a estavam engasgando. Ela veio terrível e cruel!
Estava tão frio naquele beco, que me fez tremer dos pés à cabeça… e eu, corajoso que sempre fui… chorei como uma criancinha amedrontada!
Foi assim, neste estado lamentável, que as alucinações chegaram. Se intitulavam: Os Cobradores e vieram para me arrancar o pedágio.
Primeiro, me apareceu uma mulher linda e sensual, que me fez sentir envergonhado da minha condição: um maltrapilho imundo. Ela se abaixou, bem perto de mim e com seu jeito sensual, me olhou nos olhos para me cobrar uma beleza que eu já não tinha, um perfume que eu não exalava… o dinheiro que eu não possuia! Me avaliou, julgou e me condenou como um imprestável. Como não tinha nada a oferecer, me levou os olhos.
O próximo foi um senhor muito bem vestido de terno e gravata, além de uma bela cartola em sua cabeça de cabelos alisados, brilhantes e bem esticados para trás. Este, quase nem falou comigo, me olhou de longe, fez cara de nojo e rapidamente cobrou o seu pedágio: minha juventude.
Então, veio o terceiro e último Cobrador. Ele era um falador, um brincalhão, que riu da minha condição e que me perguntava o tempo inteiro: – Onde estava o valentão, o arrogante… o esperto agora?
-Ok! Estou com pena de você… seu merda! Vou te dar uma chance, pois agora você tem muito pouco a me oferecer. Falou, com sua cara de zombaria e risadas histéricas. Depois, afirmou: Agora você é um “Olheiro”! Nosso observador! Dizia, enquanto a bela mulher e o senhor gorducho de terno e cartola me viam ao longe.
Então, o Terceiro Cobrador, com seu jeito maluco e gestos acelerados, quase uma caricatura de ser humano, declarou feliz da vida: – Você andará por aí e selecionará os jogadores… te jogo na vida que não desejava, onde se arrastará como pode… talvez por anos, quem sabe? Assim, sem moral, sem amores e amigos… como um maluco miserável! Em sua mente apenas as respostas para a solução dos outros, mas com uma única solução para o seu próprio problema: a pergunta chave! Para a pessoa mais arrogante que cruzar o seu caminho. Então, no meio de suas gargalhadas, o último dos cobradores me fez decorar uma questão… e eu só a usaria quando um ser suficientemente arrogante passasse por mim.
O Terceiro Cobrador se despediu dizendo que eu saberia a quem fazer a pergunta… o próximo jogador se exaltaria, se irritaria e me ameaçaria! Aquele era o sinal, para revelar o próximo jogador… do joguinho deles!
Depois de anos em sofrimento, feito um miserável… cobrando migalhas por palavras que ajudasse o próximo, pois foi este o dom que os Cobradores me deram para sobreviver naquela aflição e amargura, finalmente o ouvi passar diante de mim.
Seus passos determinados, num dia vazio, num beco qualquer… ele vinha para me salvar daquele pesadelo.
Senti um arrepio, arrisquei lhe dirigir a palavra exatamente como o último Cobrador havia me ensinado, mas saiu um pouco fraco, quase sumido.
Era ele, eu sabia… o jogo havia acabado para mim… agora era com ele, então repeti alto e em bom tom:
– Corre o risco quem não tem juizo!…

O Sorriso!

Um dia destes, caminhava sem rumo pela praia.
Estava sem motivação e sem empolgação… quase sem fé… nem no que via e nem no que não via!
Era quase um pedaço de qualquer coisa… o peito doido… os braços gelados!
Eu, um homem velho e cansado, numas destas encruzilhadas da vida…
Me sentia tão cansado e triste que já não podia nem mesmo comigo… perdido… como não queria ser!
Se você me visse, não acreditaria… creio que não me veria! Derrotado… como não podia ser!

– Fases! Acredite! Escutei perto de mim, alguém que me dirigia a palavra.

Desconfiado e de cara feia, como passei a ser… fechado, sozinho e a cara assim, sempre feia… um robô!
Não queria conversa, mas o moleque que estava ao meu lado resolveu insistir com aquele papo.
Ele tinha uma prancha debaixo dos braços, os cabelos desgrenhados, a pele bronzeada e um sorriso no rosto!

– E ai Brou? Disse animado.
Odeio estas conversas de surfista… não é para mim… um homem serio, mesmo porque, não entendo o que dizem… é muita alegria pra mim! Sou apenas um velho destruido!
– O que tá pegando Man? Perguntou, com seu constante ar de felicidade… aquela maldita felicidade, sabe-se lá do que?
Ironicamente, apenas mostrei-lhe as mãos… dando a entender que as mãos pegavam e que não entendia suas expressões sem sentido!
– Qualé cara… tá desanimadão demais… olha este mar… esta natureza!!! Dizia com uma animação inapropriada para meu estado de espírito.
– Então, porque você não vai aproveitá-la? Respondi querendo me livrar do pentelho… com o pensamento ainda mais atrapalhado!
O bom humor e o prazer dele, por estar diante de um monte de água, me irritava ainda mais! Só podia estar drogado! Pensei, com o costumeiro humor pesado.
Contrário do que eu imaginei, ele não se perturbou com minha “patada”… ele riu ainda mais!
Acabei rindo também, afinal… o que eu podia fazer… aquela merda toda era pública!!!
– Tá certo brother… tá certo!!! Você tá de bode! Normal…
Nem respondi… apenas balancei a cabeça afirmativamente.
– Ei! Cadê aquele cara sorridente? Me perguntou quase em tom de seriedade… faça-me o favor…como se essa gente fosse capaz de ter este tipo de sentimento… ou cabeça para isso. Pensei cheio de preconceito!
Fiquei olhando para o horizonte e respondi:
– Olha! Uma onda… porque você não pega sua bóia e cai pra dentro?
– Tô vendo que tem uma alma aí dentro… ele respondeu contente. – Aí, tô ligado… se você quis me “zuar”, falou do jeito certo!!! Hoje eu já caí com a minha bóia e peguei várias!!! Continuava a querer assunto, o pirralho descabelado!
– O que você quer rapaz? Porque está me pegando pra Cristo? Perguntei irritado.
– Cristo? Pô, aí.. na moral… você tá meio redondinho pra Cristo… brou!!! e caiu na risada
– Tá bom! Você já tirou o seu baratinho… eu tenho espelho… sei que estou gordo…agora cai fora! Disse louco de vontade que ele sumisse do mesmo jeito que tinha chegado… rápido!
– Calma lá tiozão, tô na boa! Só estou aqui porque tenho algo pra você… aí…mandaram te entregar! Falou o rapaz contendo a risada, enquanto pulava um pequeno murinho para buscar algo. Detrás daquele muro, ele retirou uma coisa que eu já não via há muito tempo! Era uma pranchona vermelha, parafinada!
– Acho que você se esqueceu disso… e faz tempo hein?!!! Falava enquanto arrastava até mim uma prancha 9’2… um pranchão.
– Qualé tiozão da cara feia? Abraça tua amiga aí! Ela estava há muito tempo esquecida… e na boa? Ela manda muito bem!
Fiquei muito incomodado com aquilo, como aquele moleque sabia da minha pranchona? Porque ele estava com ela? E porque ela estava tão conservada?
– Não a reconhece? Dizia com cara de quem sabia de tudo.
Pensei em negar, em dizer que ele estava maluco, que tinha se confundido… mas antes que eu dissesse qualquer coisa, ele apontou para a parte de baixo dela… e logo ali, do lado da longarina: O meu nome! Escrito pelo Shapper… revelava desta maneira, que eu já fui dela e ela era mesmo minha.
– E aí brother? Vai ficar com essa cara de bunda… ou vai pegá-la? Ria o menino… Esse tronco pesa!!!

A princípio, me envergonhei, quase neguei novamente, mas quando ele a chamou de tronco… me despertou um ciúme… uma inconformidade… o cara ofendendo minha Pranchona… só pode estar maluco!
Então respondi com cara de gozação:
– Tira as patinhas cabeção… já vi que você não tem noção de quem você está segurando! Vai curtir sua pranchinha de moça… que esta aqui é pra homem!
Ele deu risada, como se me reconhecesse de novo. Como se soubesse que ali ainda tinha uma alma! Um ser vivo!
Não me disse mais nada, apenas apontou para o mar… era hora de voltar a vida… e numa pequena distraida, enquanto eu confirmava as ondas para o meu pranchão… ele sumiu… como fumaça… exatamente como havia chegado!
Não! Eu não entrei no mar logo que a peguei! Mas fiquei um bom tempo a admirando… a querendo bem! Relembrando de mim nela… como se ela fosse um espelho de imagens congeladas… um DVD com imagens gravadas… me vi sorrindo… e me lembrei de cabelos desgrenhados… de pele bronzeada! Eu já fui uma boa pessoa!
Nos separamos… eu me afastei… e sai perdendo! Como sempre!
Analizei minha vida… as boas pessoas que conheci… as muitas derrotas e vitórias!
Não sei dizer se valeu a pena! Se pudesse pegaria outros caminhos?! Não sei!!!
Ei!… Mas agora já foi! Pensei.
Meio sem jeito, um pouco confuso, um pouco atrapalhado… tirei a camisa de tiozinho… lamentando a bermuda inapropriada para entrar na água… e entrei com a minha velha companheira!
Foram as piores e mais divertidas ondas da minha vida… os “Retosides” mais prazerosos e mal pegos e ainda assim, mais uma vez, o melhor dia da miha vida! Como costumava ser!
Tudo aquilo foi um mistério…aquele dia foi um mistério… mas agradeci em pensamento ao menino, por me trazer de volta a minha alma… meu sorriso desaparecido!
Eu redescobri que ainda tinha um… e era um belo sorriso.

Vida!

Ei! O que eu posso fazer? Sou apenas um pobre diabo… e estou completamente entregue…
Bebi tanto que nem sei como parei aqui, mas sei que não estou aqui à toa!
Tem gente com medo de mim e se esquiva e corre e se esconde… qualé? Ando por aí com minha cartola e fraque, encantando, seduzindo e trazendo para o meu mundo quem eu quero… cai quem quer!!!
Ontem fui naquela boate e fiz a minha noite valer a pena… o que? Acha que sou só eu que te queria? Hahaha!!! Eu era o menos afoito! Vi santinho, vi padreco e crente que pula em culto… na mesma fila!!! No mesmo erro!rsrsrs
Quem tem domínio nestas coisas? Quem “se acha”, também estava lá… de quatro… boca aberta e coração partido… disputando sua atenção!
Cuidado aí você que acredita que é malandro demais, ou santo demais… espera… não joga ainda a sua pedra!
Já te vi fumar, beber e fazer muita porcaria… não me julgue! Não me olhe de cima… nem de baixo… somos do mesmo nível… pode olhar nos meus olhos! Estamos na mesma fila!
Esta noite eu vou te buscar… a festa vai ser boa! E você vai pirar… diz aí?
Tô ligado na sua… se tem medo… então se cuida… o bicho vai pegar! O som vai rolar… e a porcalhada vai se jogar!!!
Tá com medo? Então se cuida… mas não julgue daí… que eu prometo fazer o mesmo daqui!!!
Se é errado? Já não sei… tô nessa faz tempo, me joguei faz tempo!
Ela faz estas coisas comigo e com todos que a vê e se envolve! Ela domina, ela é uma diaba deliciosa e pra vê-la, pra tê-la tem que se jogar!
Se vale a pena? Não tenho certeza, mas já não penso mais nisso, só sou um pobre diabo… e quero ela!
Mas quem não quer?
Por favor… me deixa ficar um pouquinho mais com essa… Vida!

Carregando Caminhões!!!

Aquele dia era um dia especial… o dia de voltar para a casa!
Hoje ele é um cara mais velho e lento, mas ainda de grande coração!
Saiu de casa por acaso, na intenção de ajudar um amigo caminhoneiro com uma carga que não podia atrasar rumo a um país vizinho, quando ainda era muito jovem!
Foi de bom coração, logo depois que seu amigo reclamara da falta de ajuda, pois seu auxiliar havia adoecido… foi assim que ele se ofereceu a ajudá-lo.
O caminhoneiro ficou muito feliz com a boa vontade dele e o rapaz, com seu jeito tranquilo e com um bom sorriso no rosto, disse estar mesmo sem um trocado para passar os dias que viriam e que daquela maneira, um ajudaria o outro. Colocou desta forma uma justificativa menos valorosa em sua atitude, o que não era verdade. Ele só entrou nessa, graças ao seu bom coração, apenas queria ajudar e provavelmente nem sequer pensou em dinheiro… boa vontade por impulso… gratuito como sempre!
O jovem rapaz não reclamou do serviço puxado, nem da falta de conforto do trabalho e da viagem cansativa, como o verdadeiro dono daquele cargo costumava fazer, conforme lembrou o caminhoneiro.
O Jota… apelido do rapaz desde sempre, estava empolgado e feliz em poder viajar por tantos lugares diferentes e conhecer várias pessoas novas.
Ele, além de ser mesmo uma boa pessoa… fez o trabalho com tamanha alegria, dedicação e empenho, que o caminhoneiro, ao contrario do que vinha acontecendo nos últimos meses, chegou adiantado em seu destino. Aquele fato raro, de adiantar a entrega, deixou igualmente feliz o contratante, que ofereceu uma recompensa em dinheiro ao caminhoneiro como gratificação, que também resolveu fazer o mesmo pelo seu jovem e valoroso amigo, o Jota.
Ao saber da boa vontade do rapaz, da sua prestatividade e carisma, o contratante do caminhoneiro, um bem sucedido empresário, depois de poucas palavras com o Jota, percebendo sua Luz especial, o convidou para se juntar a equipe dele, pois um de seus funcionários havia pedido demissão. Disse que o ex-funcionário não gostava de seu gerente, um senhor muito sério e competente, mas de poucas gentilezas e por isso, se estranharam… e acabaram brigando. O Jota, que estava sem grandes perspectivas, pois havia acabado de se formar… aceitou aquele desafio, mesmo porque, ele percebeu que poderia, mais uma vez, ser útil e como seu amigo caminhoneiro já estava com seu problema resolvido, abraçou com coragem e de peito aberto aquele novo desafio! Sem criar grandes expectativas e sem se encher de ganância, apenas compareceu no outro dia para o seu novo trabalho e novamente o fez com a maior boa vontade possível!
Em pouco tempo, o Jota já se destacava pelo seu esforço e dedicação… recebendo assim, muitos méritos, respeito e a confiança de todos ao seu redor. Inclusive, o próprio gerente fechadão se tornou um grande amigo e confidente dele.
O Jota além de ser uma pessoa de bom coração, tinha inteligência e educação acima da média. Escalou honestamente todas as possibilidades de ascenção dentro da empresa, sem jamais mal tratar fornecedores, ou funcionários de menos prestígio, pois mesmo sendo exigente com a qualidade do trabalho de todos os envolvidos e dele mesmo, nunca perdeu o senso de humanidade, sabia direcionar as pessoas para que elas dessem o máximo de si e caso algo saísse errado, ele se reportava aos seus superiores com o espírito de solucionar sem jamais se esconder, culpando, ou acusando alguém. Respeitava até mesmo aos que não mereciam, esta era sua postura diante do próximo e seu lema pessoal era: Estou caregando caminhões e trazendo soluções… e seguia feliz.
O carregar caminhões, era referência de como ele havia chegado ali, assim como ele imaginava que poderia melhorar a vida das pessoas… aquele “carregar caminhões” era uma referência da quantidade de gente que ele poderia ajudar em sua vida! Como se ele estivesse lotando caminhões de pessoas e as levando para um lugar melhor, a uma vida melhor.
Com seu carisma, prestatividade, inteligência e boa vontade, ele rapidamente estava no comando ao lado do dono da empresa, onde ajudou no crescimento e no faturamento. Como exemplo de vida, muitos dos funcionários se inspiravam em suas palavras e atitudes, o que colaborou ainda mais para a prosperidade da empresa.
Sua postura e, acima de tudo, sua boa vontade com as pessoas, foi se tornando conhecida por todos e sendo espalhada de boca em boca, criando dimensões que ele mesmo não esperava, pois ele não se sentia dando o melhor de si, pois acreditava que poderia ser ainda melhor.
Sua fama de bom homem e seu senso de justiça na busca de qualidade de produção, atrelada a qualidade de vida dos funcionários, foi aumentando, assim, Jota desenvolveu projetos de auxílio e apoio as famílias. Primeiro, das famílias de funcionários da empresa, depois da comunidade ao redor e por fim, do município.
Jota não conseguia ficar apenas cuidando da empresa onde trabalhava, pois ele sentia dentro dele que podia ajudar muito mais, foi assim que, suas idéias revolucionárias foram apresentadas ao Estado e com o sucesso e em alguns anos, foram sendo assimiladas e propagadas, até que todos daquele país se beneficiavam, sem saber, dos projetos eficientes de Jota… todos baseados na Boa Vontade com o próximo.
Ele só não foi mais fantástico, pois encontrou barreiras levantadas pela própria burocracia e alguns políticos mal intencionados, mas mesmo com as dificuldades impostas, Jota conseguiu grandes apoios e uma parcela interessante de mudanças e realizações!
Hoje, depois de anos, desde de sua saída… Jota um pouco cansado, mas realizado… apenas voltava para casa, pois acreditava que já tinha feito o que podia!
Ao chegar em sua cidade de origem, as pessoas daquela cidade, daquele bairro… da sua vila… nada sabiam dele. Suas idéias mudaram o mundo, mas dentro de sua discrição e humildade, ele não mudara o seu jeito simples e ainda de boa vontade, exatamente como seus pais o ensinara.
Ele estava no portão da casa de seus pais, preparado para entrar, quando viu um caminhão encostado do outro lado da rua… e ao observar um pouco mais, percebeu que o motorista estava em dificuldades, pois trabalhava sozinho… ele abordou o rapaz e descobriu que se tratava do filho daquele seu velho amigo caminhoneiro dos tempos de juventude. Com poucas trocas de palavras, Jota descobriu que o rapaz estava em dificuldades, pois seu auxiliar estava adoentado. Ele então, retirou sua blusa de tecido fino, recolheu as mangas da camisa e começou a ajudar o jovem caminhoneiro. Foi aí que um velho amigo de Jota o reconheceu e perguntou:
– Jota! Há quanto tempo! Você desapareceu… o que tem feito da vida?
Jota, mais velho, de fios brancos no cabelo e uma barba rala toda branca, respondeu com seu velho sorriso, um pouco mais cansado, mas ainda de boa vontade:
– Carregando caminhões!!!

Profissionais em ação!

Oras… Aquele dia estava quente demais… apenas isso!
E o calor mexe com a cabeça da gente e esquenta os humores e irrita nas pequenas atitudes! Nos gestos e insinuações… Não sabe, não fale! Cale-se! Sem julgamentos.
Naquele dia, seus temores se tornavam reais… juntou um aluguel no outro e ele estava sendo pressionado, ameaçado… intimado! A dona era impiedosa… velhinha cruel!
O calor era de enlouquecer qualquer um… sem ar condicionado, sem um som decente no carro! Sem dinheiro para gasolina!
E aquele trânsito? Já era ruim para uma pessoa comum… o que dizer para ele?
Não se orgulhava de seu trabalho, mas também não reclamava… não era a dele. Ele sabia que tinha que ser controlado, frio, silencioso, discreto… sigiloso!
Sua figura não inspirava confiança e nem medo, pois suas roupas mal combinadas e de seguna classe, não impressionava ninguém.
Passou a noite na boate, concentrado, se inspirando mais uma vez para fazer o que devia ser feito.
Ele era procurado, mas ninguém sabia que se tratava dele… sua imagem não correspondia com a busca, um sujeitinho comum e à margem de qualquer roda de marginais e criminosos… sua classe social era indefinida.
Estar ou não estar presente? Quem liga? Nem sua família sabia direito o que dizer dele… um mistério… um Zé Ninguém!
Seu trabalho era do tipo que não se procura nos jornais, só acontecia se fosse indicado e tinha que ser bem indicado.
Já fazia um tempo que ele não trabalhava… tinha recebido duas propostas antes desta, a que ele estava prestes a executar, mas faltou confiança nos clientes… duas jovens senhoras endinheiradas… mulheres de “Barão”, como ele chamava os muito ricos, ou melhor, dois ex-barões… outro profissional havia aceitado a encomenda. Gente ruim, da pior espécie, não temia pegar qualquer trabalho… porém, amador demais… Deixou pistas, provas… agora… todo mundo na cadeia… ele estava certo mais uma vez. Ele dizia que era um pressentimento, uma coceira na testa… no nariz… coisa de profissional!
Começou cedo na área… nunca foi por gosto, já que era temente a Deus, mas a necessidade… a tal da sobrevivência!

A boate fechou quando o sol estava nascendo… a hora que tinha de ser!
A encomenda? Uma mulher muito linda… uma dama da noite… das que faz um homem balançar, se envolver e falar demais! Ela dançou a noite toda e ele até torceu para que ela se divertisse ao máximo, pois era sua última noite… sua última aventura!
Deus colocou ele no caminho dela… e ele havia sido bem pago para isso… nada podia salvá-la!
Ela se despediu sorrindo e brincando com todos, exatamente como ela sempre fazia… mas, pela última vez!

Encomendada, seu destino estava nas mãos dele… e ele se vangloriava de nunca ter falhado… e não falhou!
Ele também nunca havia sentido dó de suas encomendas, mas daquela vez tremeu… ela se assemelhava e tinha a idade de sua filha mais velha… a que estava na faculdade!
Lembrou do aluguel… estava mesmo atrasado, a do mês anterior encostou na do mês vigente.. e ele era orgulhoso! Gostava das contas em dia.
Sem uma aposentadoria decente… IPTU, IPVA, Taxas e Prestações atrasadas… fora a escola dos filhos mais novos, os amados filhos.. e a faculdade da mais velha? Como aquilo era caro!

Ele a seguiu o dia inteiro… discretamente, sabia tudo dela, sacou até um admirador secreto, perto de uma destas esquinas da vida! Lamentou pelo o que poderia ter sido, mas imediatamente imaginou que estava fazendo um bem, afinal, ela era uma profissional e o coitado não tinha chances… o pobretão não a veria hoje e nem nunca mais…

O trabalho foi feito como o encomendado… pareceu um assalto… levou a bolsa da moça com ele… entre dinheiro e bagunças de mulher havia um celular com a foto dela… ele sentiu dó pela primeira vez, uma pequena comoção… quase quis virar o rosto!

Aquele ano ele estava garantido, seu cliente era um dos bons! Era uma relação de confiança… mais uma vez selada.
Ele não levou os sentimentos profissionais para sua vida pessoal… estava tudo bem!
Ele se negava a se arrepender… ele era um profissional e cada um com sua responsabilidade!
Ele era respeitador e nunca julgava ninguém, mas também não aceitava julgamento.
Ela era uma profissional, fez o que tinha que fazer… por isso, logo depois do expediente dela… ele fez o dele.

Ao chegar a noite, em sua cama, fez suas orações rotineiras e foi dormir de cabeça vazia… feliz… as contas estavam pagas!

Guerra de grafite!

– Prazer! Sou o ilustrador que conversou ontem de manhã com o senhor… pelo telefone.
Disse isso ao senhor careca e de pele esbranquiçada de escritório, com seu olhar engrandecido pelos óculos de miopia e a expressão de quem compreendia a minha presença ali… naquela sala restrita.
Falava com ele, enquanto algo estranho acontecia nos fundos daquele lugar gigantesco. Um grupo de pessoas, que sentavam bem lá no fundo, me olhavam de forma diferente… e com a minha mania de perseguição disparada, senti que não era bem-vindo!
Saquei na hora… eram os ilustradores mais antigos da empresa, que por estar com excesso de trabalhos, resolveu a contragosto deles, chamar alguns “Frelas”… no caso, eu!
As pessoas são como os animais… marcam território e, por isso, odeiam invasão!
Se fôssemos bichos, talvez viessem me cheirar… rosnar para mim! O mais gordo do grupo de cinco ilustradores, talvez começasse a mijar pela sala inteira… como quem diz: – Aí! Você não é bem-vindo e esta merda toda é minha!!!rsrsrs
Ilustrador é igual a nadador… somos sozinhos!
Não se desenha em grupos, fora grafites gigantescos, que podemos, neste caso, chamar de revezamento… na comparação ao nadador! Mas isto é outro caso… outro grupo.
Geralmente, ou na grande maioria, somos assim… sós e cada um por si. Por isso, no caso de um livro novo… não há o prazer de dividir, de agregar, de se dizer: Estamos juntos aí… hein, galera?! Ou é meu… ou é dele!!! E isso, faz de mim um rival… um oponente… uma pedra no caminho!rsrs
Fui apresentado ao grupo, que me receberam com a frieza esperada e logo na seqüência, fui solicitado a adentrar em uma sala pequena, ali por perto, com as portas de vidro transparente, na intenção de que o senhorzinho simpático, pudesse analisar meu portifólio.
Ele falava comigo, enquanto passava calmamente folha por folha, da pastinha que continha meus trabalhos.
Eu já conhecia cada uma daquelas ilustrações e sinceramente… mesmo sendo eu, o guardião de minhas obras e sem querer desrespeitá-lo, tudo o que eu mais queria, era pegar algum trabalho e ir embora logo, pois o grupo do lado de fora, que eu podia ver através daquelas portas de vidro que nos cercava, parecia estar um pouco agitado.
Mesmo com toda a simpatia da figura agradável, do respeitável senhor que me entrevistava, podia, ao mesmo tempo, perceber as más intenções de meus oponentes… que desenhavam homenzinhos na forca e cabeças em bandejas!
O senhor, que havia gostado de meus trabalhos, se levantou de onde estava sentado em determinado momento e foi até a sua outra mesa do lado de fora daquela salinha, com seus passos lentos, para pegar um cartão de visita, ou algo do gênero, o que me deu tempo suficiente para sacar uma folha e um lápis e desenhar rapidamente uma arma, um revólver, onde apontei para o grupo do lado de fora, que me mostrava seus desenhos ameaçadores… então, fiz sinal que aguardassem e rapidamente estiquei uma bandeirinha do cano de meu revólver e escrevi: Bang!
Eles, não acreditando em minha audácia, começaram um desafiador jogo de personagens que, atacavam, gritavam, guerreavam, onde eu, cuidadosamente e em menor número, me defendia como podia.
Paramos nossa brava luta, quando o senhor retornou com seu cartão em punho e a promessa de trabalhos futuros.
Me despedi educadamente de meus valorosos oponentes, que, igualmente educados, me cumprimentaram sem mágoas. Enfim… não sei se ganhei ou perdi aquela batalha alucinada e silenciosa, só sei que fui solicitado dias depois, para ilustrar um livro… que coincidentemente, era sobre guerra!!!rsrsrs